Os historiadores e estudiosos têm identificado na história
do Brasil muitas construções ideológicas que contribuíram e ainda contribuem
para encobrir as contradições sociais e consolidar a classe dos poderosos no
comando do país. O sucesso destas construções é exposto no relatório da Oxfam
(2024) ao mostrar que o 1% mais rico da população possui 63% da riqueza
produzida no Brasil enquanto os 50% mais pobres detêm somente 2% do patrimônio
nacional. Estes últimos são abandonados, criminalizados, perseguidos,
explorados e humilhados. A tendência de hoje não aponta para uma mudança deste
cenário, mas ao contrário percebe-se uma orquestrada articulação política e
social para o perpetuamento desta situação que perdura desde a chegada dos
colonizadores nesta terra.
Mitos como “somos um país cordial, harmonioso e sem
conflitos” não se sustentam frente ao escrutínio da realidade. Autoritarismos, violências,
intolerâncias, racismos, feminicídios, Ditaduras e extermínio de povos e
culturas são alguns desafios que enfrentamos e que estão arraigadas na alma
brasileira. A escravidão continua no Brasil contemporâneo, sendo sustentada por
estruturas e instituições políticas, sociais e culturais. Para que este regime
escravocrata continue é necessário que ele seja encoberto e disfarçado por uma
roupagem abrilhantada. Qualquer tentativa de alteração desse regime provoca uma
reação enérgica daqueles que são beneficiados por ele.
Os golpes perpetrados no Brasil mostram que as classes dos
privilégios estão atentas e dispostas a tudo para não perder a mamata. Todas as
vezes que alguma mudança é ensaiada estas classes atuam para desmoralizar e
deslegitimar os grupos subversores, ainda que à custa de mentiras, violências e
mortes: Ditadura Militar (1964), Deposição de Dilma Rousseff (2016), Prisão de
Lula (2018), Ataque aos três poderes (2023). Para este movimento autoritário, o
importante é que o regime escravocrata continue assegurando os privilégios das
elites e a humilhação do povo brasileiro.
O atual Senado brasileiro está sintonizado com esta tendência
autoritária ostentando uma forte representação de extrema-direita, que ocupa mais
de 59% das cadeiras legislativas. As siglas do Partido Liberal (PL), do Partido
Popular (PP), do União Brasil, do Republicanos e do Podemos se destacam na
representação das elites brasileiras encabeçando a filosofia da humilhação
popular. Na maioria das vezes eles recebem ajuda do Movimento Democrático
Brasileiro (MDB) e do Partido Social Democrático (PSD), que ironicamente levam
o nome de democráticos. A Câmara dos Deputados também se alinha ao projeto
antipopular com mais de 50% das cadeiras ocupados por partidos e agentes de
extrema-direita, recebendo auxilio dos partidos do Centro (MDB e PSD).
Para legitimar os ataques ao povo brasileiro e fortalecer as
elites parasitas estes partidos aprovaram o PL da Dosimetria, que reduz as
penalidades por crimes contra a democracia, incentivando a cultura do golpe
instalada no Brasil. O presidente do Senado Davi Alcolumbre (União/AP)
articulou com os demais senadores da extrema-direita e do Centro a derrubada do
veto do Presidente Lula, visando favorecer os golpistas e incentivar novos
golpes no futuro. Esta medida mostra o que já é óbvio: o desprezo das elites pela
democracia e o seu apresso pela desigualdade que tanto maltrata o povo
brasileiro.
Os deputados também mostraram que trabalham contra o povo
brasileiro e contra o meio ambiente, favorecendo o maior retrocesso ambiental
do país. A Câmara dos Deputados derrubou os vetos do presidente Lula,
fragilizando a legislação ambiental e promovendo a devastação das florestas e
biomas brasileiros. Com a aprovação do PL da Devastação, os deputados flexibilizaram
ou dispensaram em muitos casos o licenciamento ambiental. Isso inclui grandes
empreendimentos agroindustriais, obras de infraestruturas até atividades em
áreas sensíveis e ricas em biodiversidade. Isso significa mais queimadas, mais
desmatamentos, mais animais perdendo os seus habitats e mais riscos de doenças.
Precisamos de uma verdadeira abolição da escravidão, mas ela
será feita somente quando levarmos às últimas consequências a democracia
através da expansão e garantia dos direitos de cidadania para todos os
brasileiros. Este projeto, por sua vez, só poderá ser realidade quando o
Congresso Nacional abrigar os setores mais perseguidos da sociedade: pobres,
mestiços, negros, mulheres, indígenas, LGBTQI+ e ambientalistas.
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