Pular para o conteúdo principal

Querida Água

Ivânia Vieira

Todos os dias nos encontramos contigo, em diferentes momentos (quando escovamos os dentes, tomamos banho, tomamos café, lavamos as louças, as roupas, fazemos a comida...)

Ainda assim não prestamos atenção devida à importância da tua presença em nossas vidas e nas outras vidas. Não prestamos atenção na violência que praticamos contra teu corpo, cotidianamente, e nos eventos maiores, por meios de políticas desenvolvimentistas e de grandes projetos.

Parece mesmo que não nos importa o quanto o teu corpo está machucado, ferido e agonizando em determinados pontos onde antes tu eras plena, bela, pujante...um convite para convivermos juntas e juntos, com respeito e em harmonia.    

Na Amazônia, querida Água, estamos entrelaçados/as em ti, pelos rios, os igarapés, os lagos, os Olhos D’água...

Ah, os Olhos D’água, estes estão sendo massacrados pela fúria da ganância dos homens. Querem acabar com eles, com a gente, as outras gentes e as outras vidas.

Nossos encontros contigo expõem a profunda desigualdade de ti alcançar: Alguns a tem em abundância, outros sofrem com a escassez, medem cada gota usada. E milhares não podem encontra-la, banhar-se, lavar as mãos, conviver contigo.

São muitos os que morrem porque utilizam a tua porção contaminada. Essa que é tão comum na Amazônia, no Amazonas, em Manaus, aqui neste Porto da Ceasa. São 1,4 milhão de pessoas que morrem, anualmente, devido à falta água e às condições inadequadas de higiene e saneamento; as doenças como diarreia, cólera, febre tifoide entre outras;

As pesquisas mundiais nos dizem que hoje que:  cerca de 2,2 milhões de pessoas não dispõem de água potável em casa; 3,4 milhões de pessoas não dispõem de saneamento básico seguro; a coleta de água para os lares é feita por mulheres e meninas. Elas são 70% do total das pessoas responsáveis por esse serviço em diferentes países.

No Amazonas, 11,3% das crianças e adolescentes não têm acesso à água encanada, entre 300 mil e 500 mil mulheres viver sem acesso adequado à água.

Por isso, estamos aqui, neste Dia Mundial da Água – 22 de março de 2026 - no encontro sagrado das águas do rio Negro com o rio Solimões, para pedir perdão as Nossas Senhoras das Águas, dos Navegantes, a Oxum, a Mama Cocha, a Iara, a Iemanjá... por toda maldade cometida pelos homens contra o teu corpo, a tua existência e o teu território;

Estamos aqui para reafirmar nosso compromisso de seguirmos com a nossa luta contra a privatização dos rios, a destruição dos igarapés e na defesa dos recursos hídricos como bens coletivos;

Estamos aqui, em nome do Fórum das Águas do Amazonas (FAAM) e da Frente Amazônica de Mobilização em Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas (FAMDDI) para renovar nossa disposição de seguir lutando, entrelaçar nossas mãos e, juntos/as, espalhar nosso grito na cobrança às autoridades para que cumpram com seus deveres e garantam acesso à água potável aos que não a têm e que a sociedade, consciente, seja guardiã das águas.

Estamos aqui em nome das mulheres e das meninas dos diferentes povos, pois, são elas as maiores vítimas da falta de acesso à água; daquelas e daqueles que tombaram na defesa dos direitos humanos à água, dos direitos humanos ao saneamento básico e dos direitos da Natureza, dos rios, dos lagos, dos igarapés, dos Olhos D’água.

Estamos aqui em nome da VIDA da ÁGUA que é a nossa VIDA e a fonte do bem comum. Cada uma de nós, cada um de nós é uma gota d’água que se faz rio – Encontro das Águas -, se faz mar.

Estamos aqui em reencontro de esperança contigo, querida Água. Juntas e juntos ecoamos: Nossos rios não estão à venda!”

Carta lida na 3ª Romaria das Águas, no dia 22 de março de 2026

Comentários