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Conflitos hídricos em tempos de mudanças climáticas

Não somente as ciências, mas também as observações cotidianas constatam mudanças significativas ao longo dos últimos séculos. Já não se pode negar a reincidência de tragédias ambientais que desembocam em perdas de muitas vidas. O planeta já extrapolou os seus limites, tendo que assimilar pressões produzidas por um estilo de vida competitivo, utilitarista e consumista. Um estilo de vida ironicamente projetado como uma conquista moderna.

Vemos hoje mudanças desconhecidas pelas gerações passadas, mas que certamente afetarão as futuras: secas severas e frequentes, calor intenso, enchentes demolidoras, elevação dos níveis marítimos, geadas rigorosas e derretimento das calotas polares. Estas consequências das mudanças climáticas podem ser percebidas no cotidiano das populações dos diversos países, mas os pobres são os setores mais afetados, pois vivem em lugares com menos infraestruturas e possuem reduzidas possibilidades de enfrentarem estas situações.

Cientistas das mais variadas áreas de estudos identificam a elevação da temperatura no planeta causada pela intervenção humana como a emissão de gás carbônico e outros combustíveis fósseis largamente utilizados na sociedade moderna e contemporânea. Grandes incêndios florestais e devastação de biomas, intensa poluição dos recursos hídricos com os mais variados poluentes, abolição da biodiversidade colocando em risco inúmeras espécies de vida. Estas representam algumas das intervenções humanas responsáveis pelas mudanças climáticas, que afetam dramaticamente a vida sobre a terra e nas profundezas dos oceanos.

Nestas condições, a água doce, elemento essencial para a sobrevivência humana, se torna cada vez mais rara. Para as populações mais vulneráveis a água tem acesso sempre mais reduzido. Na sociedade dos mercados, onde se procura desesperadamente oportunidades de lucros, estas circunstâncias são chances de retornos econômicos e financeiros. Por isso, grandes empresas surgem para se apropriar e controlar os escassos mananciais hídricos. A água se transforma em uma mercadoria ideal para explorar os consumidores e beneficiar os comerciantes e banqueiros. A sua essencialidade para a vida humana e social garante o retorno econômico dos investidores ávidos por rentabilidade.

A privatização passa a ser estimulada pelos empresários e bancos, sendo adotada por muitos Estados e Municípios com total indiferença às dificuldades enfrentadas pelas populações mais pobres. A falta ou a precariedade dos serviços de água e esgoto nas áreas de habitação popular e nas periferias adquirem um status de normalidade. Estas populações começam, no entanto, a se organizar para garantir o acesso às reservas de água, pois precisam sobreviver. Os conflitos pela água ganham contornos mundiais deflagrando violentas e cruéis guerras.

Cochabamba (Bolívia) presenciou uma guerra por água nos anos 2000, onde a população e a empresa de saneamento se enfrentaram, deixando muitos feridos e mortes. As comunidades venceram a guerra da água e assumiram o controle dos serviços de água na cidade que se tornou símbolo dos conflitos pela água em todo o mundo. A guerra da água na Bolívia ganhou repercussão mundial, alertando sobre as desigualdades e injustiças produzidas pelos contratos de concessão, que beneficiam as empresas em detrimento da população.

Em 1913, os moradores de Manaus também se revoltaram contra a concessão privada, destruindo os escritórios da empresa Manáos Improvement Limited e expulsando a concessionária da cidade. O governo do Estado encampou os serviços de água e esgoto e reassumiu a gestão. Este evento mostra que a força popular pode se impor quando as comunidades são prejudicadas pelos negócios dos grandes comerciantes. As comunidades sabem que a água é um bem público e não pode ser controlada para beneficiar um punhado de empresários.  Água é direito, não é mercadoria!

As mudanças climáticas radicalizam ainda mais os conflitos hídricos. A mensagem de Cochabamba ainda ecoa nas comunidades: a água é do povo! É possível uma gestão democrática do saneamento! Trata-se de um grito que deve chegar aos quatro cantos do mundo. Diante dos desafios das mudanças climáticas, o grito da população persiste e clama por uma sociedade justa e sustentável.

Amazonas Atual https://amazonasatual.com.br/conflitos-hidricos-em-tempos-de-mudancas-climaticas/ 

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